Construindo uma carreira

por Appolo Moreira


Meu nome é Appolo Moreira, tenho 23 anos e desde muito cedo exerço a profissão de baterista, isto é, pago minhas contas trabalhando estritamente com música e com a arte de tocar este instrumento. É claro que não é uma tarefa nada fácil, mas é isso que eu gostaria de relatar a vocês e mostrar o quanto é possível, de mostrar meu ponto de vista, como administro e, principalmente, como as coisas acontecem pra mim em relação a gigs e gravações.

 

Hoje exerço três funções relacionadas à música: sou baterista profissional (ao vivo e estúdio), sou professor de bateria e drum tech de Aquiles Priester.

 

Uma pergunta freqüente que escuto é: “Cara, como você conseguiu tocar em tal lugar (ouvi muito isso quando toquei com a banda Hevorah na abertura do Nightwish, na Via Funchal em 2008), ou gravar esse lance?” Obviamente ninguém consegue nada sozinho, mesmo tendo talento. Agora, se você unir alguns pré-requisitos, as coisas podem engrenar na sua vida musical. Pré-requisitos como carisma, humildade, honestidade e, o ponto chave, os contatos... Um bom contato, ou alguém que possa ajudar nesse meio disputadíssimo, valida todos esses aspectos que citei. Digo por experiência própria. E não pense que só por que está tocando em algum lugar não tão badalado que esse bom contato não esteja lá para ver sua postura, sua pegada e se você de fato merece uma boa oportunidade, independente do lugar do show. Foi assim que consegui contatos para shows em casas muito boas. E isso também vale para as gravações.

 

Um fator que conta quando o assunto é estar pronto para uma gig ou gravação, mais do que a qualidade técnica do batera e do equipamento, é a honestidade. Você, mais do que ninguém, sabe das suas qualidades e mais ainda das suas limitações. Observe que isso, recusar uma gig ou gravação porque não é a sua praia, ou porque não tem fluência em tal estilo ou ritmo, não é motivo para se envergonhar. Na verdade, mostra outras duas qualidades fundamentais que citei acima, humildade e honestidade, principalmente consigo mesmo. Quando existe um convite de gravação, o produtor já deve ter feito uma investigação a seu respeito, provavelmente já te viu tocando ao vivo, ou alguém lhe indicou (ponto para o carisma e o talento), mas nem sempre a praia da gravação é aquela que você domina. Saber dizer “não” na hora certa (e indicar um amigo que você sabe que toca aquela praia) é uma atitude bem madura.

 

Não se deve fazer distinção no mundo da música, principalmente se você não conhece a pessoa. Às vezes, ser gentil com alguém pode abrir portas que você jamais imaginaria. Esse “alguém” pode ser um “grande contato”. É claro que isso só funciona quando unido ao seu talento de baterista propriamente dito. Mantendo essa política, tenho sempre minha agenda ativa, já que não posso me dar ao luxo de ficar parado. Meu sustento vem somente de música, tocando, gravando, trabalhando com o Aquiles ou dando aulas.

 

Esse universo musical, não só da bateria, mais em toda a abrangência que ela envolve, exige que você esteja sempre acima da média. Tento fazer isso me mantendo atualizado em assuntos gerais, não só na música, como também em todas as pautas que um cara versátil deve saber. Afinal, um batera “gigeiro” é sempre um grande camaleão. Procuro sempre comparecer a workshops dos mais diferentes bateras. Os últimos que tive a oportunidade de ver foram, Billy Cobham, Dennis Chambers e Simon Phillips. Além disso, escute diferentes estilos musicais, freqüente workshops, procure escutar as dicas de bateras que você curta, inove e saiba que a música é um eterno estudo: nunca pare.

 

Vale ressaltar que boa parte do meu conhecimento musical, de bateria e do mundo da música, devo ao grande baterista e meu mestre Alaor Neves, que me fez ver além da bateria em si e ter a noção de que “você é o que você toca”. Ter um mestre é muito importante na formação.

 

Essa vida que escolhemos não é nada fácil. Você passa por muito altos e baixos. Por conta disso, sempre que tenho um mês bom financeiramente, não saio gastando adoidado, porque não sei se o próximo mês será lucrativo. E aí entra minha função de professor. Leciono em minha própria casa, assim como muitos bateristas que conheço. De praxe, tento sempre iniciar o aluno na borracha, com rudimentos e controle de pegada (tocar com mais intensidade e menos intensidade), caso o aluno não tenha noção nenhuma do instrumento. Sinto que sentar na batera e de cara e não conseguir tirar nada que não seja barulho, frusta o aluno e ele desiste. Criar essa base e passá-lo para bateria quando já tem uma certa intimidade com as baquetas faz com que ele se sinta mais confiante. Mas sempre lembro que a borracha será sua grande amiga pelo resto da vida, seja você um baterista iniciante ou um renomado mestre na área.

 

Comentei um pouco sobre a minha abordagem com os alunos porque é fundamental não só conseguir um aluno, como também mantê-los. E aí o buraco é muito mais embaixo... A maioria dos meus alunos são fâs de bandas em que já toquei, ou conhecem meu trabalho através de gravações ou indicação (olha aí o carisma de novo). Portanto é muito comum o aluno novo só estar encantado pelo instrumento, ou querendo trocar uma idéia com você. Acaba sendo como um fogo de palha. Fazendo dessa forma, isto é, começando com uma base, o cara nota que todos são capazes e acaba se interessando pelo assunto, se aprofundando e torna-se um aluno muito mais duradouro.

 

Para finalizar vale a pena dizer que não trocaria minha vida de baterista por nenhuma outra. Apertando aqui e ali, é sim possível conciliar todas as funções que tenho. Basta um pouco de organização, muito estudo e, é claro, tocar o que você curte. Mãos à obra, o caminho é longo mais muito gratificante!

 

Appolo Moreira é baterista e professor. Contato: http://www.myspace.com/appolomoreira


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