Aulas sobre dar aulas: o legado de Chumbinho - Parte 1

por Pércio Sápia e Janete D’Alonso Ferreira


Pércio Sápia é um conhecido baterista de São Paulo. É filho de Gilberto Sápia, violonista do imortal grupo Demônios da Garoa e do grupo Os Uirapurús. Teve como mestre de bateria João Rodriguez Ariza, o Chumbinho, professor e sócio-fundador do CLAM, a escola de Música do Zimbo Trio. Infelizmente ele “viajou fora do combinado” em 2004.

Pércio estudou com Chumbinho entre 1977 e 1980, quando teve contato também com Rubinho Barsotti e a obra do Zimbo Trio, fundamental para sua formação. Em 1979 ele começou a dar aulas no Conservatório Marly Domingues usando o método de bateria do Chumbinho, editado pela Zimbo Edições, com autorização e incentivo do próprio autor para a divulgação.

De 1980 a 1986 ele deu aulas e tocou em várias bandas: Band-Aid, Zero Hora, Ópera Brasil e Este Lado Para Cima (com Átila e Eduardo Ardanui); tocou em diversos bares de São Paulo, como Beleléu, Lei Seca, Trump, Stardust, Baiuca, QG; e tocou com nomes famosos como Lito Robledo, Wilson Teixeira, Eduardo Santos Souza, Alexandre Mihanovich, Hector Costita, Arismar do Espírito Santo e Moacyr Peixoto. Gravou jingles e trilhas comerciais e participou de Festivais – de Avaré; de Música Sacra de Itapetininga; do Fico. Participou também dos Projetos do SESC Adoniram Barbosa e Elis Regina. Em 1984 deu aulas na Toque Escola de Música.

Em 1986, Pércio foi fazer uma visita ao Chumbinho no CLAM e recebeu o convite para dar aulas e fazer parte do grupo de apoio nos ensaios para audição de final de ano. Sob o comando e orientação de um dos melhores e maiores professores do CLAM, Fernando Campos Motta, supervisor do departamento de piano, arranjador, band leader e excelente instrumentista (ao piano, teclado, baixo, bateria...), Pércio acompanhou nada menos que 340 músicas, sem precisar de partitura, num só final de ano.

Daí ele entrou para a escola de cabeça: fez o CenFor (Curso de Formação de Professores do CLAM), sob o comando da então supervisora do departamento infantil Maria Lucia Cruz Susigan, passou a ter orientação pedagógica baseada nos estudos de Jean Piaget, Paulo Freire, Edgar Williems, Amidon e Flanders, Robert Mager, e Emília Ferrero, dentre outros. Essa formação envolveu orientação, observação de aula e aplicação de conceitos que reverteram em melhor desempenho como profissional. O resultado mais objetivo disso foi que os alunos passaram a permanecer por mais tempo no curso – alguns mais de cinco anos. E muitos bateristas formados pelo Pércio atuam com muita competência hoje: Gilson Lane, Alex Buck, Giba Favery, Christian Piason de Freitas e Luiz Fernando Capano, entre outros.

Janete D’Alonso Ferreira é pianista, arranjadora, compositora e pedagoga. Estudou piano erudito com Rosana Galves e Cíntia Priolli; e piano popular no CLAM. Cursou pedagogia na Faculdade de Educação Campos Salles e fez o CenFor. Foi professora no conservatório Frutuoso Vianna de 1977 a 1981, pianista do Ballet Stagium de 1980 a 1981, e da peça “As Encalhadas”, sob direção de Bibi Ferreira, durante dois anos. Foi professora e assistente do departamento de iniciação musical e professora do departamento de piano do CLAM, onde atua até hoje. É professora e coordenadora do Programa Musicar da CUEBLA e da APA. É pianista do Hotel Rubayiat da Alameda Santos, do quinteto Trincheira e do Projeto Saúde em Concerto, do Laboratório Delboni Auriemo.

O CLAM (Centro Livre de Aprendizagem Musical) foi fundado em março de 1973 pelo Zimbo Trio e pelo baterista Chumbinho. Com o ensino sistematizado, organizado em níveis, e com produção de material didático moderno e atualizado, seguindo o melhor do mercado Bossa Nova, Jazz e de MPB em geral, e com um dos melhores trios instrumentais à frente, logo se tornou atrativo para muitos músicos que procuravam melhorar ou ampliar seus conhecimentos. A proposta sempre foi de aulas em grupo, mas grupos de instrumentistas (um baterista, um baixista, um pianista...), para que as pessoas tocassem juntas. Com o o tempo, o CLAM cresceu e ampliou sua atuação. Foi criado, então, o Departamento Infantil, com a professora Maria Lucia Cruz Susigan, que trouxe conceitos pedagógicos que facilitaram e melhoraram o processo de ensino de toda a escola. Contando com a colaboração de Silvio Cruz, do SENAI, intensificou-se a formação pedagógica dos professores, os melhores alunos passaram a ser convidados a dar aulas, e melhorou-se no material didático, com a criação de módulos de ensino. Com os conteúdos corretos, a dose certa, a conduta e a linguagem unificadas, e o Zimbo Trio como padrão de som, a escola tornou-se a primeira e melhor escola de música do Brasil.

Como monitor e assistindo as aulas de vários professores, Pércio então percebeu a imensa contribuição do mestre Chumbinho, a forma como ele passava as informações e lições, e como demonstrava interesse no crescimento dos alunos como músicos.

Os principais conteúdos para a formação, usados inconscientemente por Chumbinho, foram sendo confirmados pelos estudos pedagógicos de Pércio. Os incentivos, quer com palavras ou gestos; a compreensão; a tolerância; e o fazer (tocar) junto, quer o aluno tenha estudado ou não em casa, são atributos de um verdadeiro educador e mestre do ensino da bateria.

O motivo pelo qual estamos contando toda esta história é justamente apresentar uma sequência de matérias voltadas para o professor (de bateria, mas também de outros instrumentos), que transmitam a capacidade de Chumbinho como professor, e passem de forma clara os conceitos, os macetes, as soluções que Chumbinho encontrava em sala de aula para fazer seus alunos crescerem. Tudo isso acabou respaldado pelos estudos pedagógicos que Pércio e Janete desenvolveram, mas a essência sempre foi o espírito de Chumbinho.

Nas próximas quinzenas desdobraremos cada um destes conceitos (a. incentivar com palavras e gestos, b. compreender, c. tolerar e d. tocar junto) através de “causos” da carreira de Chumbinho, lembrados por Pércio e analisados do ponto de vista pedagógico.

Se você tiver alguma dúvida, precisar de ajuda, quiser saber mais ou se gostaria que algum aspecto da relação aluno-professor seja analisado, entre em contato através do e-mail contato@obaterista.com.



Comentários

Sobre o site | Política de Privacidade | Contate-nos | 2009 OBaterista.com