
por Alex Buck
Estamos em 2009, final da primeira década do século XXI. Se pensarmos que há exatos cem anos o instrumento que chamamos bateria nem existia em nosso país, teremos a noção de quão recente é sua história no Brasil.
Para se ter uma idéia, em 2008 comemoramos o centenário do nascimento de nossa primeira referência, Luciano Perrone, que iniciou sua trajetória como baterista apenas 14 anos depois, em 1922, quando substituiu o baterista de uma orquestra de cinema. Isso nos deixa com um campo para estudo de apenas 87 anos de história, bem mais enxuto que outros dentro da música (quem estuda composição erudita, por exemplo, deve ouvir mais de quatro séculos de história de compositores das mais diversas nacionalidades).
Nesses 87 anos de história da bateria no Brasil o instrumento foi vastamente difundido, conseguiu penetrar em quase todos os estilos musicais por todas as regiões do país. Hoje a bateria é utilizada em apresentações e gravações de samba, baião, maracatu, frevo e tantos outros ritmos que, outrora, eram exclusividade de outros instrumentos percussivos como o caxixi, a zabumba, o triangulo, o pandeiro, etc.
Os expoentes do instrumento
São inúmeros, portanto, os instrumentistas que criaram a história da bateria brasileira. Mas se tivéssemos que peneirá-los a fim de achar os expoentes de cada estilo, escolher apenas alguns destes personagens para contar essa recente história, quem seriam os escolhidos?
Escolhi doze bateristas que, em sua maioria, atuaram profissionalmente no eixo Rio – São Paulo. São eles: Luciano Perrone, Rubens Barsotti, Edison Machado, Milton Banana, Toninho Pinheiro, Wilson das Neves, Robertinho Silva, Airto Moreira, Nenê, Paulo Braga, Adelson Silva e Márcio Bahia.
Luciano Perrone encabeça a lista não só pelo fato de ser o mais velho, mas também porque foi o primeiro a dar a devida importância ao estudo do instrumento. Foi Perrone quem defendeu os bateristas numa época em que eram chamados de “tocadores de boi morto” (referencia à pele da bateria, que antigamente era feita do couro do animal). Teve uma parceria de mais de 50 anos com um dos mais importantes compositores e arranjadores do país, Radamés Gnattali, além de ter sido grande pesquisador e divulgador dos ritmos brasileiros.
Já quase na metade do século a bossa nova, uma vertente do samba, traz Edison Machado e Milton Banana no Rio de Janeiro, Rubens Barssoti e Toninho Pinheiro em São Paulo.
Edison Machado gravou importantes discos nos anos 60, eu destacaria um dos primeiros discos de Elis Regina, “Samba eu canto assim” (1965). Edison, influenciado por importantes bateristas americanos como Elvin Jones e Tonny Williams, aliado à sua personalidade forte e egocêntrica, interpretava o samba de maneira jazzística, com uma dinâmica fortíssima. Atribui-se a ele a invenção do samba no prato, mas acredito que essa não tenha sido sua maior contribuição visto que, cedo ou tarde, alguém o teria feito. Sua maior contribuição foi arrumar uma nova função ao baterista, a bateria aparece em primeiro plano, por vezes encobrindo outros instrumentos. Ele cria uma nova maneira de abordar o samba. É o início de outro importante estilo musical: o Samba Jazz.
Milton Banana é o Sr. Bossa Nova, é o inventor dela na bateria. Tocava o necessário, em função da música. Participou da antológica e original gravação de “Chega de Saudade” (1959), de João Gilberto. Posteriormente formou um importantíssimo trio de bossa nova que serve de referência até hoje para qualquer baterista interessado em aprender o estilo.
Wilson das Neves gravou vários discos de bossa nova, choro e outros estilos também, mas hoje é considerado referência no samba. Tem uma maneira minimalista de interpretar uma música, sempre respeitando e dando prioridade aos instrumentos de percussão, fazendo poucas ou nenhuma virada durante uma mesma música.
Parceiro fundamental para a criação da concepção musical de Milton Nascimento, Robertinho Silva trouxe importantes contribuições para o instrumento devido ao seu vasto conhecimento de outros instrumentos percussivos e de música folclórica. Foi bastante influenciado por Edison Machado, vide sua maneira de tocar samba. Participou de gravações importantes com Wayne Shorter e Herbie Hancock.
Tocando uma bossa nova mais moderna, Paulo Braga acompanhou durante anos duas das maiores figuras da música popular brasileira: Tom Jobim e Elis Regina. É o rei da vassoura. Junto com o baixista Luizão Maia, criou uma das mais importantes cozinhas da música brasileira e gravaram discos antológicos: “Passarim” (1987) e “Elis & Tom” (1974) são alguns deles. Percebe-se ainda grande influencia de seu antecessor, Milton Banana.
Airto Moreira foi o primeiro de uma ninhada de bateristas–compositores. Fez parte do grupo Quarteto Novo (com Hermeto Pascoal, Heraldo do Monte e Théo de Barros), que gravou um único disco, que foi divisor de águas na música instrumental brasileira. Airto foi quem começou a dar uma roupagem impressionista ao samba, elevada à décima potência pouco depois por Realsino Lima Filho, o Nenê. Airto seguiu carreira solo nos Estados Unidos, tocou percussão com Miles Davis e virou referência mundial como músico.
Com a saída de Airto, entra em cena o mais importante baterista do século passado, Nenê. Cansado daquela maneira “bossa nova” de se tocar bateria (chimbal fechado tocando todas as semi-colcheias junto com o aro da caixa), Nenê abre as possibilidades da condução. A condução não se restringe mais a uma levada constante, e passa a ser um contra-ponto ao que o improvisador estava fazendo. Nenê desenvolveu o mesmo processo em todos os ritmos, inventou levadas abertas para maracatú, baião e frevo. Outros instrumentos foram agregados ao timbre de sua bateria: sinos, panelas e caxixis.
Seguindo essa mesma ninhada e resgatando um pouco da concepção do nosso primogênito, Luciano Perrone, temos Márcio Bahia que, assim como Perrone, também tocou percussão erudita em orquestras (influência perceptível em sua maneira de tocar e conceber música). Assim como Airto e Nenê, também é compositor, tem uma concepção também aberta e foi peça fundamental na formação da cozinha (junto com o baixista Itiberê Zwarg) do grupo de Hermeto Pascoal depois da saída de Nenê.
O expoente do frevo é Adelson Silva, mestre de todos os bateristas de Recife e integrante da mais importante banda de frevo: a Spock Frevo Orquestra.
Pesquisando o século XX
É de conhecimento comum que os brasileiros não costumam preservar sua história. Eu adoraria ter tido a oportunidade de ler um livro com todas as informações possíveis sobre os bateristas brasileiros, suas biografias detalhadas, discografias completas, entrevistas e vídeos. Isso não foi possível. É fundamental para o músico estudar todos os movimentos musicais que o antecederam. Os norte-americanos tem sua história consolidada, registrada em discos, matérias da época, biografias, autobiografias. Nós ainda temos um caminho longo pela frente.
Tive dificuldades enormes para encontrar as informações mais básicas. Não foi possível achar, por exemplo, uma biografia de Toninho Pinheiro, as datas de nascimento do Nenê e do Paulo Braga. Discografia completa só do Airto Moreira, disponibilizada por ele através de seu site (www.airto.com).
O jeito foi arregaçar as mãos e entrar na internet em busca de todo e qualquer material. Blogs e sites como o CliqueMusic (www.cliquemusic.com.br), dicionário Cravo Albin (www.dicionariompb.com.br), Edison Machado Blogspot (http://edisonmachado.blogspot.com/), Loronix (http://loronix.blogspot.com/), e-Jazz (www.ejazz.com.br), Um Que Tenha (http://umquetenha.blogspot.com) e Youtube tem sido de grande ajuda para essa reconstituição.
Depois que reuni um material razoável, somado às histórias que ouvi dos músicos com quem já tive o privilégio de tocar ou conversar tais como Wilson das Neves, Guilherme Vergueiro, Arismar do Espírito Santo, Nenê, Rubens Barsotti, Márcio Bahia, Raul de Souza e tantos outros músicos da noite, decidi montar um curso para tentar contar essa história tão importante da nossa cultura. A qualidade do material ainda é muito aquém do que imagino, eu precisaria de muitas horas para digitar a discografia que encontrei de cada baterista, mas não sou pesquisador, nem historiador, nem jornalista. As biografias precisariam ser revisadas, pois muitos dos textos sobre as mesmas pessoas se contradiziam, por vezes até em datas. Enfim, essa é uma tentativa de dar um pontapé inicial.
O Curso
O curso tem como objetivo principal elucidar a história da bateria brasileira do início do século XX até os dias de hoje através do estudo detalhado da biografia e discografia desses doze principais expoentes do instrumento no país.
As classes são compostas por no mínimo três e no máximo cinco alunos. As aulas tem duas horas de duração, divididas da seguinte maneira: leitura da biografia e discografia do baterista nos primeiros 20 minutos, 10 minutos para comentários iniciais. Uma hora destinada à audição cronológica de parte de sua discografia. Os trinta minutos finais são dedicados à discussão sobre os mais diversos aspectos de sua história, desde as novidades que ele trouxe para o instrumento até a forma como conduziu sua carreira, etc.
O aluno de bateria sairá do curso sabendo quem são Luciano Perrone, Edison Machado, Milton Banana, Nenê, Toninho Pinheiro, Robertinho Silva, Paulo Braga, Adelson Silva, Rubens Barsotti, Wilson das Neves, Márcio Bahia e Airto Moreira, as novidades e contribuições que cada um trouxe para a bateria e para a música brasileira em geral.
Além de conhecerem parte da discografia, terão um panorama geral de como a música brasileira evoluiu durante o século passado. Ouvindo Luciano Perrone teremos contato com o trabalho de Radamés Gnatalli; ouvindo Márcio Bahia teremos contato com Hermeto Pascoal; ouvindo Robertinho Silva teremos contato com a voz de Milton Nascimento, e assim por diante.
Os alunos receberão do curso uma apostila com a biografia de todos estes bateristas e, quem trouxer um HD, poderá ter acesso a toda discografia estudada.
Os que tiverem interesse em fazer o curso podem obter mais informações pelo telefone (11) 3804-9669, ou contactar Alex Buck pelo e-mail alexbuck16@yahoo.com.br ou pelo MySpace www.myspace.com/alexkbuck.