Quanto devo estudar para aplicar?

por Alexandre Damasceno


Por razões democráticas, a resposta para esta pergunta poderia ser: depende.

Por razões fisiológicas, a resposta também deveria ser: depende.

Por razões musicais, a resposta é: depende.

Depende do que? De cada indivíduo, de cada dia, de cada objetivo traçado, etc. Vocês querem uma fórmula rápida e segura, tal como uma formula mágica? Bem, esta eu não tenho, mas se a tivesse dividiria com vocês. Com certeza eu também teria economizado algum tempo de estudo ao longo destes meus anos de música. Mas, sinceramente, hoje percebo que um dos fatores que me ajudou e continua a me ajudar é justamente o acúmulo destes anos.

Mesmo assim, é relevante a questão para cada um traçar uma rotina em seus estudos e equilibrar nesta rotina o que será estudado, e neste ponto surgem outras duas questões: quão satisfatório está o que estudei e, se realmente estiver, onde aplicar?

Primeiro precisamos entender um pouco como funciona o que chamamos de memória muscular. Ela é um dos fatores determinantes na resolução de problemas mecânicos. Estes problemas, e assim o chamamos pois serão resolvidos, são questões básicas como: resistência, velocidade, interdependência, e tudo isso acompanhadas pela precisão e qualidade da execução.

Nossos músculos necessitam de uma quantidade de repetições para se acostumarem com um novo movimento. Após esta quantidade, que depende de pessoa para pessoa, o processo se torna mais confortável e é realizado muitas vezes sem a necessidade de antecipá-lo em nossa mente. Por exemplo: todos se lembram quando conheceram pela primeira vez o paradiddle. Aquela manulação parecia, naquele momento, algo difícil de memorizar, algumas vezes invertia-se as mãos, outras esquecia-se a seqüência... Hoje são capazes de executá-lo sem a necessidade de pensar na manulação. Isso acontece por que seus músculos memorizaram o movimento e o executam sem o acompanhamento em tempo integral do seu cérebro.

Quando conseguimos levar qualquer exercício a este nível, dispomos de muito mais atenção para ouvir o que está acontecendo musicalmente ao nosso redor. Nossa percepção pode recair sobre a música, e não nos rudimentos, por exemplo.

Existem varias publicações referindo-se de forma bem mais completa a este assunto, e é sempre muito bom entender como seu organismo funciona, tendo assim um melhor controle sobre ele.

Outro ponto importante a salientar é: somente a memória muscular resolve nossa questão preliminar?

Depende.

Qual o objetivo do que está estudando? É um exercício técnico, uma levada completa, uma transcrição de solo?

Primeiro saiba o que deseja conseguir, assim saberá qual caminho percorrer.

Questões musicais necessitam da interação entre os músicos de um grupo, e neste ponto a memória muscular não resolve nosso problema, pois ela é simplesmente uma memória motora. Sua intervenção é fundamental na decisão DO QUE TOCAR, ONDE TOCAR e COMO TOCAR. Estes três pontos são os alicerces do seu vocabulário e, baseados neles, sua linguagem no instrumento adquirirá características próprias. Seu estilo de tocar.

A) O QUE TOCAR se baseia em escolhas, que geralmente são tomadas a partir da experiência que cada um tem no repertório que já ouviu, assistiu ou tocou. Dificilmente uma pessoa que nunca ouviu uma nação de maracatu conseguirá ser coerente nesta linguagem, e acabará por escolher frases ou levadas que não se encaixam no gênero. Se está certo ou errado, isto é outra questão, mas se deseja se manter dentro de algo que já existe, precisa saber onde este algo começa e termina;

B) ONDE TOCAR pode contribuir ou prejudicar muito a escolha feita. Respeitar a melodia do tema, auxiliar as dinâmicas naturais da música ou os pontos previamente combinados, utilizar fills e levadas mais ou menos densas. Estes locais definem o caminho que irá seguir e é sempre interessante que todos os músicos do grupo alcancem este local juntos.

C) COMO TOCAR é, talvez, o mais subjetivo dos três pontos levantados. Quem já não tirou uma música inteira em que um grande batera toca, e ao executá-la integralmente, ouviu que o resultado ficou muito diferente? O que causa esta diferença? Somente a questão técnica? Timbres? Pulsação? Ou tudo isso e mais outras tantas coisas juntas? É neste momento que toda a sua história no instrumento conta. Toda sua experiência, somada à sua maturidade, geram este resultado final, que no fundo é o reflexo de você, como ser humano e músico.

O que podemos refletir sobre estas questões levantadas?

- Precisamos de uma rotina de estudo onde fisicamente resolvamos as questões técnicas, fazendo com que nossa memória motora seja disciplinada a responder sem a necessidade de consumirmos toda nossa atenção neste ponto;

- Tenhamos tempo para ouvir e ver muita música, adquirindo conhecimento sobre assuntos diversos, como gêneros musicais, características individuais de diferentes músicos, repertório e etc.;

- E lembrando sempre que conhecimento e saber são coisas distintas. O amadurecimento da informação adquirida vem com o tempo de prática, o tempo em que você dispensa pensando, analisando e comparando o assunto. Quanto tempo isso leva? O quanto você precisar. Como definí-lo de uma maneira comum a todos? Impossível calcular corretamente, pois cada um traz consigo sua individualidade, e será ela que se sobreporá a qualquer questão externa.

Sejam felizes!


Bibliografia:

Mcardle, William; Katch, Frank; e Katch, Victor; Fundamentos de Fisiologia do Exercício – Energia, Nutrição e Desempenho Humano; Guanabara-Koogan, Rio de Janeiro, 2ª edição, 2002.



Alexandre Damasceno é baterista e professor, leciona na Fundação das Artes de São Paetano do Sul e na FAAM, já tocou com Vanessa da Matta, Silvio Mazzuca Jr., Jazz Sinfônica de Diadema e Zizi Possi, entre outros. Atualmente toca com Ana Paula Lopes, Faa Morena, Flávio Barba, Grupo Aquilo Del Nisso, Jorge Ervolini e Marcelo Gomes, entre outros, e é integrante do TrincadiCabum. Contatos:

www.aledamasceno.com.br; www.myspace.com/aledamasceno; www.myspace.com/trincadicabum



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