Ritmos do Candomblé – Parte 2

Por Roberto Rutigliano



Seguindo nossa exposição, falemos agora do Ijexá.

Queria esclarecer que podemos encontrar este ritmo com o nome de Ijexá ou Afoxé, e que a questão aparece de modo contraditório em diferentes fontes. Muitas vezes é chamada Afoxé a formação instrumental (como o Afoxé Filhos de Gandhi, por exemplo) e também a festa (“vamos a um Afoxê”), e chamado Ijexá o ritmo. Há fontes em que os nomes aparecem como sinônimos, ou invertidos.

O Ijexá vem da tradição dos escravos vindos de Ilesa, na Nigéria, que formaram a chamada Nação Ijexá, uma nação do Candomblé. Existe uma identificação entre o ritmo e o orixá Iemanjá, a rainha do mar, dos pescadores, a entidade que nos remete ao mito da sereia, da mãe e da feminilidade.

Mostro primeiro a instrumentação original nos atabaques, no exemplo 7:

Este vídeo tem bem claro a execução tradicional do ritmo:

Note que seu feelling é mais sensual, seus andamentos são lentos ou médios. O Ijexá tem uma vocação para o mundo externo, inclusive é chamado como “Candomblé de rua”, e talvez por isso seja um estilo de relativa difusão, incorporando-se à música popular brasileira, principalmente na Bahia (ouça, por exemplo, “Toda Menina Baiana”, de Gilberto Gil).

O Ijexá é também ritmo base de grupos de percussão, como é o caso de “Afoxé Filhos de Gandhi” e “Filhos de Korim –Efam” (grupo com o qual tive o prazer de tocar no Rio).

Assim como observamos uma influencia do Ilú em outros estilos, vemos que existe um parentesco marcado entre a frase que toca o “Rumpi” no Ijexá e alguns arranjos das Escolas de Samba de Rio de Janeiro, nos Surdos de terceira (que improvisam), e a base do ritmo Milonga, um dos subgêneros mais antigos do tango, quando é tocado em andamentos acelerados (ouça as milongas “El Once” ou “Varón”). Esta é a “Milonga Sentimental”, do violonista argentino Luis Salinas

Agora vejamos sua instrumentação na bateria:

Vejamos como caso especial quando tocamos Ijexá junto com outros percussionistas. É então que a bateria se comporta de um modo básico e tem que manter a função de marcação, apenas saindo deste continuo para tocar as frases nos toms.

No exemplo de áudio escutamos um arranjo mais estilizado, que gravei com o grupo Xekerê. Esta é a música “Triciclo”, de Adriano Souza, que consta do álbum “Brasil-Latin-Jazz”.


ÁUDIO


Vejamos por ultimo algumas outras possibilidades mais sofisticadas da aplicação do ritmo na bateria:

Há aqui dois vídeos que trazem mais informações sobre o ritmo e sua tradição. O primeiro é um documentário sobre o ritmo, e o segundo é uma execução tradicional.



Eu gostaria de agradecer a Sebastian Notini pela ajuda na execução deste artigo.

 

Roberto Rutigliano é baterista e professor. No Rio de Janeiro, estudou música brasileira com Cláudio Caribé, Wilson das Neves e Ney D’Oxosse, pesquisou música ritual afro-brasileira em terreiros de candomblé e tocou em escolas de samba. Gravou com Sérgio Naciff (1990), com o grupo Xekerê (desde 1993) e Itiberê Orquestra Família (2002), e participou do Festival de Música Contemporânea em Belo Horizonte (2002), com Maria Tereza Madeira, Paulo Santoro e Andréa Ernest Dias. Mantém, com Odette Ernest Dias, o duo Aritmo. Desde 1996 é professor da Pro Arte. Contato: www.myspace.com/robertorutigliano


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